Hospital - Apontamentos Históricos

    No começo da Idade Média, muitas ordens religiosas criaram os hospitais, que ofereciam abrigo a viajantes e peregrinos e cuidavam deles quando doentes. Essas casas, derivadas dos centros de assistência surgidos junto a comunidades religiosas nos primeiros séculos do cristianismo, deram origem ao nome hospital. Neste sentido Hospital é o estabelecimento onde se acolhem doentes para proporcionar-lhes assistência médica, e ao mesmo tempo, dispõe das instalações e da infra-estrutura necessárias ao desempenho de funções paralelas como o ensino prático da medicina e a pesquisa.

    Em países menos desenvolvidos, porém, os hospitais tendem a ser polivalentes.
    No século VI a.C., segundo a literatura indiana, Buda nomeara um médico para cada dez vilas e fizera construir hospitais para os pobres e aleijados, exemplo prontamente seguido por seus devotos.

    No Sri Lanka (antigo Ceilão) existiram hospitais desde 437 a.C., mas um dos primeiros de que se tem notícia mais pormenorizada foi o construído entre 273 e 232 a.C. pelo imperador Açoka, na Índia, que se converteu ao budismo e sensibilizou-se com os sofrimentos do povo. Nessa instituição, os atendentes eram instruídos a tratar os pacientes com carinho, servir-lhes frutas e vegetais frescos, massageá-los, mantê-los limpos e preparar medicamentos.

    Na ilha grega de Cós foi fundado o templo de Asclépio ou Esculápio, à sombra do qual se formou e pontificou Hipócrates, cujos ensinamentos se baseavam mais nos fatos do que na fé.

    Do templo central, em Epidauro, saíram as imagens de serpentes entrelaçadas (cujas línguas eram usadas na assepsia de úlceras) que se tornaram emblema da medicina e se difundiram nos novos templos-hospitais construídos em toda a Grécia. Eram edificados em colinas ou no sopé de montanhas, junto a praias ou florestas, de preferência perto de fontes onde os doentes se purificavam com banhos, massagens e unções antes de serem admitidos ao templo. Recomendava-se a abstinência de vinho e de certas iguarias, e era usual a prática dos ex-votos, confecção de modelos da parte do corpo a ser curada.

    Com o advento e difusão do cristianismo por volta do século IV, registrou-se um aglutinamento dos centros de assistência aos doentes em torno das comunidades religiosas, com destaque para os beneditinos de monte Cassino. A partir de um decreto de Constantino em 335, aboliu-se o culto à serpente, e embora a enfermagem, inspirada pela religião cristã, fosse dedicada e carinhosa, os preceitos médicos de Hipócrates e outros passaram a ser rejeitados para dar lugar ao misticismo.

    Durante a Idade Média, o cristianismo continuou a ser o mais importante fator na fundação e manutenção de hospitais na Europa. Com as cruzadas, a construção de hospitais ganhou novo impulso em função das doenças e das pestes, mais dizimadoras do que as espadas pagãs. Em 1099 um grupo de cruzados erigiu na Terra Santa um hospital militar com capacidade para abrigar dois mil pacientes.

    O hôtel-dieu de Paris, criado no ano 656 pelo bispo Landri, no século XIII já contava com água corrente, lavanderia e calefação. Mas era um caso excepcional, já que, em regra, os doentes eram abrigados em hospitais, lazaretos (para leprosos) ou casas de quarentena de precárias condições higiênicas. A situação piorou com a promulgação, em 1163, de um edito da igreja, que proibia aos clérigos fazer operações que envolvessem perda de sangue.

    A atividade médica dos padres ficou cada vez mais restrita e coube aos barbeiros a responsabilidade pelas cirurgias. Os conhecimentos de Hipócrates e outros grandes médicos gregos só foram conservados graças aos monges copistas que pacientemente transcreveram seus escritos.

    No século XIV o Concílio de Vienne dividiu as atribuições: a cura do corpo caberia aos leigos, e a da alma aos religiosos. No mundo islâmico, adquiriu importância pioneira o hospital al-Mansur, no Cairo, que por volta de 1300 tinha enfermarias isoladas para os pacientes mais graves, ambulatório, cozinha dietética, biblioteca e até um incipiente serviço social, que concedia aos pobres uma dotação temporária depois da alta. No Renascimento, os hospitais perderam de vez o caráter monástico e passaram para o controle do estado.

    Nos séculos XVIII e XIX começaram a surgir os grandes hospitais. A partir de 1847, no entanto, que ocorreu um verdadeiro salto qualitativo, com a adoção de medidas de limpeza das salas de operação e dependências hospitalares, com o fim de prevenir infecções, o que se verificou graças ao trabalho do médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweis em prol da assepsia e, depois, de Louis Pasteur e Joseph Lister.

    O índice de mortalidade pós-operatória só foi reduzido depois que Pasteur demonstrou que as bactérias surgem não por geração espontânea, mas por reprodução. Passaram-se então a fazer rigorosa assepsia nos hospitais, com o emprego de sabão, água, escovas e anti-sépticos.

    Os grandes centros hospitalares são projetados de acordo com uma série de critérios prévios de localização, facilidade de acesso e de comunicação, baixo nível de poluição ambiente e possibilidades de expansão. Ao se construir edifícios para um centro hospitalar, é necessário avaliar uma série de critérios eminentemente funcionais: distribuição dos cômodos de modo a atingir o número desejado de leitos, largura dos corredores e medidas para facilitar a evacuação em caso de emergência.
    Do mesmo modo devem ser projetadas as principais unidades no interior de cada bloco especializado.

    Assim, cada edifício deve, por exemplo, dispor de dependências suficientes para suas funções específicas: enfermarias, salas de consulta e visita; departamentos cirúrgicos de acesso restrito, em que se distribuam com equilíbrio as salas de operação e as áreas de sua manutenção; unidades de supervisão ou de terapia intensiva, onde os doentes graves ou em fase pós-operatória sejam acompanhados; instrumental permanente em ótimas condições de assepsia e demais serviços subsidiários. Contam-se entre estes, por exemplo, creche, lavanderia, cozinhas, restaurantes e lanchonete.

    Quanto à estrutura global dos hospitais, distinguem-se as divisões médica, administrativa e médico-administrativo, esta última encarregada da integração e coordenação das funções e dos serviços gerais do estabelecimento.

    Esses serviços, do ponto de vista estritamente clínico, compreendem em geral as unidades clínicas, cirúrgicas, obstétricas (maternidade), pediátricas e psiquiátricas. A infra-estrutura hospitalar deve dispor de uma série de serviços de diagnóstico e terapia, além de dependências para reabilitação e ensino.

    As Santas Casas de Misericórdia foram os primeiros hospitais brasileiros e herdaram sua organização das instituições portuguesas de mesmo nome. Segundo alguns, a primeira a ser fundada no Brasil foi a Santa Casa de Misericórdia de Olinda PE, em 1540, seguida da Santa Casa de Santos SP, em 1543 ou 1551. Outros autores atribuem a precedência à Santa Casa de Santos, que teria sido inaugurada por Brás Cubas.

    No final do século XX o panorama hospitalar brasileiro era bastante heterogêneo. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a assistência hospitalar é especialmente precária, pois o número de estabelecimentos é reduzido e a distância entre eles chega a ser de centenas de quilômetros. As regiões Sudeste e Sul, mais favorecidas, contam com alguns grandes centros hospitalares, mas também se ressentem de falta de leitos e equipamentos.

    De acordo com suas funções, os hospitais brasileiros estão distribuídos em hospitais de ensino, unidades integradas de saúde, hospitais gerais de crianças, hospitais especializados e hospitais gerais de crianças e adultos. O maior complexo hospitalar do Brasil é o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, construído por exigência da Fundação Rockfeller como condição de concessão de vultoso auxílio à faculdade e inaugurado em 19 de abril de 1944.

    Fonte: ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda

     

    Edison Ferreira da Silva

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