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O uso da Inteligência Artificial de forma inadequada

 

A crescente incorporação da Inteligência Artificial (IA) no segmento de prestação de serviços de saúde tem despertado entusiasmo, mas também uma série de preocupações legítimas que precisam ser debatidas de forma responsável. Embora a IA ofereça ganhos expressivos em eficiência, diagnóstico e gestão, seu uso indiscriminado ou mal regulado pode trazer riscos éticos, sociais, trabalhistas e assistenciais.

Uma das principais preocupações reside na desumanização do cuidado. A saúde é, por natureza, uma atividade que exige empatia, escuta qualificada e vínculo entre profissional e paciente. A substituição excessiva de interações humanas por sistemas automatizados pode comprometer a qualidade do atendimento, especialmente em populações vulneráveis, como idosos, pessoas com deficiência ou pacientes em sofrimento psíquico, que dependem fortemente do contato humano para um cuidado integral.

Outro ponto sensível é a segurança e a privacidade dos dados de saúde. Sistemas de IA dependem de grandes volumes de informações sensíveis, como prontuários eletrônicos, exames e históricos clínicos. Vazamentos, uso indevido ou comercialização desses dados representam grave violação de direitos fundamentais, afrontando princípios constitucionais e normas como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A falta de transparência sobre como os algoritmos utilizam essas informações agrava ainda mais esse risco.

Há também preocupações quanto à responsabilidade técnica e jurídica. Decisões apoiadas por IA — como diagnósticos, priorização de atendimentos ou indicação de tratamentos — levantam questionamentos importantes: quem responde por um erro? O desenvolvedor do sistema, a instituição de saúde ou o profissional que utilizou a ferramenta? A ausência de marcos regulatórios claros pode gerar insegurança jurídica e colocar em risco tanto os profissionais quanto os pacientes.

No campo trabalhista, a adoção da IA pode intensificar a precarização do trabalho em saúde. A automação de processos administrativos e assistenciais, se não acompanhada de políticas de qualificação e valorização profissional, pode resultar em sobrecarga, redução de postos de trabalho e aumento da pressão por produtividade, afetando diretamente a saúde física e mental dos trabalhadores do setor.

Por fim, preocupa a reprodução de vieses e desigualdades. Algoritmos treinados com bases de dados incompletas ou enviesadas podem reforçar discriminações raciais, socioeconômicas ou de gênero, comprometendo a equidade no acesso e na qualidade do cuidado. Em um sistema de saúde que deve se orientar pelos princípios da universalidade e da justiça social, esse risco não pode ser ignorado.

Diante desse cenário, é fundamental que a implementação da IA na prestação de serviços de saúde seja acompanhada de regulação rigorosa, controle social, transparência e participação dos profissionais da área.

A tecnologia deve ser um instrumento de apoio ao cuidado humano — e não um substituto da responsabilidade ética, do julgamento clínico e da centralidade do paciente. O desafio está em equilibrar inovação e proteção, garantindo que o avanço tecnológico sirva à saúde e à dignidade humana.

 

Edison Ferreira da Silva

www.estudoemfocosaude.com.br

 

 

 

 

 

 

 

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Dr. Edison Ferreira da Silva

  • Direito – Universidade Braz Cubas – UBC
  • Administração – Faculdade de Administração Alvares Penteado – FAAP
  • Administração Hospitalar e Gestão de Saúde – Fundação Getúlio Vargas – FGV
  • Saúde Ambiental e Gestão de Resíduos de Saúde – Universidade Federal de Santa Catarina UFSC e Fundação Getúlio Vargas – FGV
  • Gestão e Tecnologias Ambientais – POLI/USP

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